06/09/2017

92% introspectiva (mas 8% blogueirinha)



Imagem encontrada no Pinterest



Recentemente, postei um texto (aqui e no Medium) que alcançou mais de 200 mil visualizações. A princípio, fiquei bastante feliz. Depois, fiquei um pouco incomodada. Não sabia exatamente com o quê. Aí hoje, fazendo um teste de personalidade, descobri o que eu já sabia desde sempre: sou 92% introspectiva. Sendo 92% introspectiva, pode-se dizer que eu vivo mais na minha cabeça do que fora dela. Pode-se dizer que estar sob um holofote me deixa desconfortável. Lembro que uma vez, tempos atrás, eu tinha um evento literário pra ir e não queria, então uma amiga virou pra mim e falou: "amiga, aceita. Escritor é uma figura pública hoje em dia".

É verdade mesmo. Foi-se o tempo que o escritor era aquela figura antissocial, reclusa, que passa os dias conversando com xícaras de café e maços de cigarro, mas se retrai todo diante de qualquer sinal de interação humana. Curiosamente, na verdade, grande parte dos escritores que eu conheço (incluindo eu mesma) se encaixa nesse estereótipo que eu acabei de descrever. Escritores - assim como artistas em geral - são, muitas vezes, pessoas introspectivas, com uma sensibilidade aflorada, excessivamente abertas pro mundo, excessivamente expostas pro mundo, pessoas que estão, ao mesmo tempo, muito dentro da vida e muito fora dela. Os escritores e artistas que conheço, em geral, são pessoas com dificuldade de viver no mundo, sempre um pouco isolados, sempre um pouco distantes.

Toda essa descrição me representa. Mas não posso deixar de lembrar - e concordar - com a frase dita pela minha amiga lá atrás: escritor é uma figura pública; ao menos, se você pretende fazer com que essa escrita chegue a outras pessoas (seja porque você pretende pagar as contas com o dinheiro que a literatura pode te render boa sorte, kirido ou porque você busca o diálogo com os leitores e outros autores). Nesse caso, é, sim, preciso que você esteja presente. Nos eventos literários ou nas redes sociais. É, sim, preciso que você fale. Naquela mesa sobre escrita que te convidaram pra participar ou nas postagens do Facebook. É preciso que você saia um pouco da sua cabeça, interrompa as conversas com o café e não se retraia diante de qualquer sinal de interação humana. É preciso diminuir os 92% de introspecção que o meu teste de personalidade me revelou hoje.

Foram esses 92% que ficaram incomodados com a visibilidade do outro texto (mesmo tendo recebido tantos comentários legais e mensagens lindas que me deixaram bem feliz - obrigada, aliás!). Você pode perguntar: "mas, se você escreve na internet, não é meio óbvio que as pessoas vão ler?" Talvez. Talvez os meus 92% introspectivos escrevam e os meus 8% extrovertidos publiquem. Na verdade, eu escrevo desde que me entendo por gente, e nunca escrevi pensando em ser lida. Escrevi em diários, em cadernos, em agendas, em arquivos do Word que ficaram esquecidos em computadores largados pelo meio do caminho. Escrevi, inclusive, em muitos blogs que eu não divulgava pra ninguém e ainda fazia questão de assinar só "M." pra ninguém saber quem era. Eu escrevo desde que me entendo por gente porque talvez essa seja a minha única forma de tentar entender o mundo e estar nele e lidar com ele. E não enlouquecer (não completamente).

Quem escreve geralmente escreve porque não arranjou uma forma de não escrever. Escreve porque precisa. Escreve porque tenta parar e não consegue. Escreve porque escrever é a única forma de continuar na vida. Mas ser lido já são outros quinhentos, ser lido é um exercício, um desafio. Ser lido é às vezes ser mal interpretado. Ser lido é se sentir exposto. Ser lido é ser arrancado - nem que seja temporariamente - do nosso casulo de introspecção. É difícil. Às vezes, incomoda mesmo. Às vezes, deixa a gente se sentindo nu em uma multidão de gente vestida. Mas os meus 8% insistem, talvez na esperança de mudar um pouco essa porcentagem, então fazer o quê? 








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