17/09/2017

Sem risco de extinção







Tempos atrás, fiquei amiga de uma menina que me impressionava muito: quando ela se interessava por alguém, ela chegava e falava na lata. Sem meias palavras, sem indiretas ambíguas, sem mensagens subliminares. Ela deixava claro. Se a pessoa correspondesse, ótimo. Se não, ela partia pra outra. Simples assim. Lembrei disso esses dias porque vi um vídeo da Ellora Haonne (vejam!) em que ela fala algo parecido. Diz ela no vídeo que já chega com um "vamo se beijar?" e, se a pessoa não quiser, ela parte pra outra. Mais uma vez: simples assim.

Essa minha amiga acompanhou a época em que eu me interessei por um menino, mas passei meses sem coragem de tomar qualquer atitude. Os amigos em comum diziam que ele parecia ter interesse. Mas eu não descobri se era verdade ou não, porque não fiz nada. Perdi o timing. Perdi a oportunidade. Na época, o meu medo de ser rejeitada era tão grande que eu preferia ficar sem descobrir o que poderia ter sido. A rejeição - pra mim - seria catastrófica. Seria um meteoro pronto pra dizimar qualquer resquício da minha autoestima. Seria assinar o meu atestado de ser humano fracassado na vida.

É engraçado que esses dias eu tenha visto o vídeo da Ellora e tenha me identificado tanto. Parece que virei outra pessoa. Virei, também, essa pessoa que joga logo um "vamo se beijar?" e, se o outro não corresponder, parto pra outra. Falei sobre essa coragem num texto recentemente, mas me parece tão importante que falo de novo. Acho que isso vem do amor próprio. Vem do amor próprio você entender que a recusa de alguém não diz absolutamente nada sobre quem você é ou deixa de ser. Vem do amor próprio você aceitar que uma pessoa não goste de você sem que isso signifique automaticamente o seu fracasso. Vem do amor próprio você respeitar o seu desejo o suficiente pra dar a ele a chance de se concretizar (ao invés de se desperdiçar, como o meu se desperdiçou outras vezes antes). Vem do amor próprio, inclusive, o partir pra outra. Que às vezes é difícil, mas também necessário.

Vendo o vídeo da Ellora e lembrando dos meus pânicos antigos, eu fico pensando que não foi fácil me tornar a mulher que eu me tornei. Eu atravessei muitos infernos pra me tornar a mulher que eu me tornei. Exigiu coragem e dor e uma força que a gente tira do útero - porque não existe nenhum lugar com mais força que um útero. Mas acho que aconteceu. Acho que tenho algum orgulho de ter construído uma relação comigo mesma que não se deixa dizimar por qualquer meteoro. Existe algo de muito poderoso em confiar na própria capacidade de sobreviver aos meteoros.





2 comentários:

  1. "Existe algo de muito poderoso" mesmo!
    Adorei muito seu post, Maíra!E realmente essa força que vem do útero é incomparável, e tenho, por vezes, a impressão de ela ainda vai me surpreender muito!Essa capacidade de se regenerar quando perdemos vida (sangue) e de gerarmos vida nova através desse mesmo sangue é de encorajar mesmo! Que possamos pensar cada vez mais nessa força para entender exatamente isso que você falou: a opinião do outro não diz quem você é. E isso não só nos ajuda a corrermos atrás dos nossos sonhos e desejos, mas a também mantermos relações mais saudáveis com as pessoas. Assim podemos controlar, então, nossas carências e aversão por tudo que nos "rejeita". Não deixaremos de existir, nem aqueles que nos rejeitarão serão degolados. Com a coragem da franqueza, podemos todos continuar buscando quem nos queira de verdade! Amém!? Amém!rs ;)
    Beijos!
    www.vestidadeceu.blogspot.com.br

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  2. Menina, que comentário mais lindo! "Essa capacidade de se regenerar quando perdemos vida (sangue) e de gerarmos vida nova através desse mesmo sangue é de encorajar mesmo!" É isso, é exatamente isso. Acho que nós, mulheres, aprendemos desde muito cedo a encostar nas nossas próprias fragilidades, né, a gente aprende a entrar em contato com o sangue todo mês... sem morrer por isso. Pelo contrário, percebendo que a gente não morre! Isso é de uma força imensa! Que a gente consiga canalizar essa força. <3

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