05/10/2017

Para os que atravessam um buraco negro por dia (e para os que nos esperam do outro lado)



(Infelizmente, não sei de quem é essa colagem maravilhosa. Se alguém souber, me avisa pra eu dar os créditos.)


Passei o setembro amarelo em branco. Planejando e planejando textos, mas sem conseguir me mexer. Às vezes, acontece. Não consigo me mexer. Especialmente quando o assunto é grande, é pesado, quando o assunto mora dentro da gente e é difícil encostar nele sem sentir algum incômodo. Como dizer? Como dar aos outros a dimensão do buraco negro atravessado todos os dias para conseguir chegar ao mundo e estar no mundo como pessoas relativamente funcionais? Como sentir que estamos falando sem que essa fala acorde em mais alguém aquilo que a gente tenta fazer dormir dentro da gente - e nem sempre consegue?

Lembro que, aos 14 anos, uma professora minha me deu o apelido de "hiperbólica". Eu era uma hipérbole ambulante. Tudo em mim era demais. Um exagero, uma desmedida. Nessa época, eu já estava frequentando a minha segunda psicanalista. Depois, vieram outras. E outros terapeutas de outras linhas. E alguns diagnósticos. Segundo eles, eu era borderline ou histriônica ou depressiva ou sociofóbica ou tinha transtorno de humor. Todos me enquadravam em algum quadro e eu continuava me sentindo uma equação mal resolvida, que alguém preencheu com números aleatórios, mas basta um segundo olhar pra ver que não fecham. Todos me enquadravam em algum quadro e o meu desconforto com a vida continuava, firme e forte, intocável.

Ao longo dos anos, tomei um ou outro remédio, encontrei melhoras e pioras, fui acumulando uma lista de recursos pra administrar as crises. Embora nem sempre elas sejam domesticáveis. Algumas, quando chegam, derrubam quase todas as minhas convicções, arrastam quase todos os afetos, desmoronam a minha pretensão de estar no controle do meu próprio estado emocional. Nessas horas, não tem muito o que fazer, exceto esperar - e torcer pra que, quando ela passe, eu ainda consiga ficar em pé.

Agora, no setembro amarelo, ouvi muitas vezes a palavra "empatia". Está na moda parecer empático. Do fundo da minha imobilidade, ouvi cada pronúncia da palavra "empatia" como uma fisgada, sendo remetida a todos esses anos de vivência com uma saúde mental, no mínimo, fragilizada. Ouvi cada pronúncia da palavra "empatia" pensando em todos os amigos que perdi, ao longo do tempo, porque fui considerada uma pessoa difícil ou complicada, porque era "sensível demais", porque me doía por pouco, porque não era otimista o bastante, good vibes o bastante, cheia de energia positiva o bastante. Ouvi essa "empatia" repetida à exaustão lembrando das vezes em que parei de ser chamada pra situações sociais por ser considerada muito furona, sem que ninguém tenha me perguntado por que, afinal, eu furava tanto, por que, afinal, era tão difícil eu ir, por que, afinal, eu raramente aparecia. Se tem uma coisa que eu percebi nesses mais de 10 anos lidando com as crises, é que as pessoas esquecem rápido quem não aparece. Enquanto a gente se entrega progressivamente ao ostracismo e se sente prestes a desaparecer.

Falei sobre isso uma vez no Facebook e repito agora: recebi muito mais doses da fatídica "empatia" quando meu pai morreu do que nas minhas crises sérias de depressão. Também vi outros recebendo doses fortes quando perdiam um emprego ou terminavam um namoro. As pessoas reconhecem a tristeza do mundo cotidiano, a tristeza dos fatos, é na tristeza inominável que elas parecem não saber como encostar. É o incômodo inominável de não conseguir levantar da cama ou estar com os outros que elas muitas vezes não entendem ou não são capazes de acolher. Afinal, como explicar que a minha vida esteja inteiramente nos eixos e ainda assim eu acorde com um piano sobre o peito e sinta uma vontade incalculável de ir embora desse mundo? Como explicar que, numa súbita crise de ansiedade, tudo me pareça absurdamente ameaçador e eu não consiga fazer movimentos básicos como dar um telefonema ou pegar um ônibus (ainda que eu tenha plena consciência das minhas obrigações diárias)?

A "empatia" repetida levianamente pela internet talvez seja, na verdade, mais uma forma de aplacar a consciência do que, de fato, uma tentativa de enxergar e acolher a dor do outro. Nesses tempos de curtidas e compartilhamentos, pelo contrário, nunca estivemos mais autocentrados e menos dispostos a conceber uma dor que não cabe nos nossos moldes do que uma dor deveria ser. Levantamos a bandeira da empatia quando buscamos a compreensão do outro, mas esquecemos facilmente dela quando dizemos a um amigo com depressão que ele não está tentando o bastante ou quando cobramos do amigo com ansiedade que ele esteja presente, mas fazemos pouco ou nenhum esforço pra entender (e tentar contornar) a limitação dele. Nos últimos anos, consigo lembrar de muitos amigos que fizeram piadas ou críticas ao meu hábito de pegar Uber pra qualquer lugar, mas cabe em uma mão o número de amigos que efetivamente tentaram entender por que os ônibus não me deixam confortável (ou que levaram isso em conta na hora de marcar uma saída comigo, por exemplo).

Nesse setembro amarelo que acabou na semana passada, li um tanto de desmistificações importantes, mas li mais apoios vazios e genéricos que muito provavelmente não se sustentam na prática. Enquanto pensava em escrever algo sobre o assunto (e eu pensei muitas vezes), só o que me vinha à cabeça é: "eu não tenho nada a dizer". E também não tenho como dar a esse texto o sentimento de esperança que eu gostaria de dar. Como falar sobre ter ultrapassado a vontade de morrer se eu continuo não entendendo muito bem o porquê de estar viva? Como dizer "resistam" se eu ainda preciso driblar, constantemente, a minha própria vontade de desistir?

Ainda assim, na minha lista de recursos para administrar uma crise, estão alguns itens que ajudam: 1) já dizia Julie Andrews, lembrar das minhas favorite things é um começo (filhotes de golden retriever, churros de doce de leite e Netflix devem contar como bons motivos pra viver). 2) conversar com quem também se dói pode não resolver, mas ajuda. 3) a falta de um sentido estabelecido pra vida pode render também, ao invés de uma desesperança, uma boa liberdade. Afinal, se nada tem sentido, isso nos dá a liberdade de inventar os nossos próprios sentidos (deliciosamente múltiplos e mutáveis). Essa minha lista, no entanto, eu só pude formular ao longo de 10 anos de crises e sobrevidas. Foi preciso encarar o fim do mundo muitas vezes e retornar, sempre sentindo que uma parte minha tinha morrido no processo, mas também sentindo que o retorno me deixava um tantinho mais forte. A gente volta meio fênix, e, depois de um tempo, começa a acreditar mais na própria capacidade de resistir aos fins do mundo.

O mundo vai acabar de novo pra mim, muitas vezes ainda, provavelmente. Mas talvez falar sobre isso já seja algum avanço. Entre vidas instagramadas e a chuva de discursos good vibes, é bom saber que tem gente que está no mesmo barco. Esse barco furado, chacoalhante, frequentemente enfrentando tempestades e que às vezes parece que vai naufragar, mas que - apesar dos pesares - segue resistindo, apostando num amanhã menos conturbado.






2 comentários:

  1. Nossa, Maíra. Esse texto foi bem lá no fundo.
    Eu também fiquei num vazio sobre o setembro amarelo. Foi uma experiência muito delicada pq trouxe questões que já estavam muito esquecidas nesse buraco negro.
    E suas palavras tão sensíveis nos ajuda a entender ainda mais sobre o que é superar e atravessar todos os dias esse buraco negro.
    Realmente a empatia temficado nos discursos e na ignorancia que nos afasta enquanto seres humanos. Espero que um dia as pessoas realmente se tornem mais sensíveis nas relações humanas. Espero que se torne comum dar uma força a quem está passando enfrentando esse buraco negro. Espero que buscar se aproximar e entender quem está se fechando, seja algo inerente a toda amizade. Enquanto não na olharmos nos olhos com interesse sincero pelo outro, viveremos presos e doentes girando em torno do nosso próprio umbigo.
    Aliás, tenho um grande amigo que desenvolveu a síndrome do pânico quando nos conhecemos. Eu não entendia, como ainda não sei o que é viver com ela, mas conseguimos juntos fazer muitas coisas. E até hoje ele superou muitas dificuldades por causa dela e da depressão que o pegou anos depois. Ja atravessamos ruas para que ele se sentisse mais confortável, já mudamos de restaurante para ele se sentir melhor, já fui buscar ele inúmeras vezes em casa para sairmos.Já fuisocorre-lo com sacos de balas de goma e muitas besteiras comestíveis.
    E o que quero dizer com esse caso? Que se precisar de alguém, me coloco a disposição. Não que você precise, eu que preciso crescer com gente grande! E você parece ser uma pessoa muito legal. :)
    Admiro pessoas que encaram seu buraco negro e levam sua experiência a diante para ajudar outros que precisam de ajuda.
    Sou agradecida também por você ter tanta sensibilidade em transformar tudo isso em palavras!
    Beijos.
    www.vestidadeceu.blogspot.com.br

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    1. Ahh, Bárbara, que comentário mais lindo! <3 E que bonita a sua atitude com o seu amigo, acho que é isso o que tá em falta mesmo, esse cuidado com o outro, esse cuidado em entender que o outro tem limitações diferentes das nossas, tem fragilidades diferentes das nossas. É difícil as pessoas entenderem isso. Mas... seguimos falando mais e mais sobre o assunto com a esperança de que isso ajude (nem que seja um pouquinho) a criar mais consciência. Beijos!

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